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Mai 09

 

A minha avó, a minha mãe e o meu tio Alberto Jorge

na 1ª Comunhão da minha mãe.

 

 

            A minha mãe, Maria Eduarda, nasceu em Lourenço Marques, Moçambique, onde viveu até Dezembro de 1974.

            Ela recorda esta época como o período de ouro da sua vida, pela intensidade das relações humanas, das experiências diversificadas e do exotismo do espaço.

            Até aos três anos, e porque a minha avó era funcionária dos Caminhos-de-Ferro de Moçambique, a minha mãe passava os dias com as tias Titicas, Zezinha e Aidinha, e com os primos e o irmão Joca. Aos três, ingressou no Colégio D. António Barroso, da Congregação do Sagrado Coração de Maria, que frequentou até aos quinze anos. A minha mãe lembra-se, ainda, com um carinho especial, de ter frequentado o ensino pré-primário, bem como aulas de piano e ballet, actividades extra-curriculares, que o colégio disponibilizava, entre muitas outras.

            Aos fins-de-semana, costumava ir à praia com a família e amigos. Numa zona de dunas, havia uma colónia de macacos que roubava os lanches que se levassem. Por isso tinha que ficar sempre alguém a vigiar as toalhas. Conta ainda que só podia ir à praia da parte da manhã, porque, com o aquecimento das águas do mar, à tarde apareciam “garrafas-azuis”, um invertebrado marinho que se enrolava no corpo dos banhistas, provocando dores muito fortes. Outra actividade de fim-de-semana era andar de barco à vela, junto à costa.

            Naquele clima tropical, a alimentação baseava-se em frutos exóticos, marisco, refrescos e gelados, bem como saladas e pratos frios.

            Como os meus avós trabalhavam, a lida da casa ficava ao cuidado do cozinheiro e do “mainato”, o empregado que tratava da roupa e da limpeza. Estes dois empregados habitavam num anexo da casa e usufruíam de alimentação e banhos diários, para além do ordenado mensal. A minha avó fazia questão de que os seus empregados frequentassem a escola todos os dias da semana às cinco da tarde. Para isso, ela comprava-lhes os livros e os cadernos.

            O turismo que a minha mãe fazia era com destino a estâncias balneares próximas de Lourenço Marques, o Bilene e a Ponta do Ouro, ou à montanha, a Namaacha, cuja água de excelente qualidade entrava na cadeia de fabrico da melhor Coca-Cola que a minha mãe diz já ter bebido. Na Namaacha, ela, o meu tio e os primos andavam a cavalo, passeavam pela cascata e iam à caça. Outra viagem que a minha mãe fazia com regularidade era a Johannesburg, na África do Sul, uma cidade, na altura, de primeiro mundo, embora se verificasse o Apartheid.

            Até 1974, Moçambique não dispunha de serviço de televisão, pelo que a família da minha mãe privilegiava uma vida baseada no convívio social e na diversificação de actividades. Existia sim, um serviço de rádio de grande qualidade, a emissora da Rádio Clube de Moçambique, importantíssima, na medida em que foi o meio de difusão dos acontecimentos do 25 de Abril, em Portugal.

            Após o 25 de Abril de 1974 e terminado o ano lectivo, muitos foram os amigos da minha mãe que abandonaram Moçambique em direcção a Portugal, África do Sul e Brasil. Os meus avós decidiram, inicialmente, que não sairiam de Moçambique. Contudo, duas datas na história deste período fizeram-nos mudar de ideias: o 11 de Setembro e o 21 de Outubro de 1974. Estes dois momentos foram de sublevação das populações negras dos arredores da cidade, de tal modo graves, que levaram a que os portugueses decidissem abandonar Lourenço Marques. De facto, as ruas foram invadidas por multidões armadas de catanas e petróleo, que utilizaram para matar sangrentamente ou incendiar carros com as pessoas lá dentro.

            Blindados e tanques começaram a patrulhar as avenidas e o clima de desconfiança estava instaurado.

            Dada esta situação, os meus avós, como a maior parte dos portugueses, decidiram abandonar Moçambique, devido à falta de segurança e à instabilidade política. A minha mãe ainda iniciou o ano lectivo 74/75, em Lourenço Marques, tendo terminado o primeiro período, em Coimbra. Contudo, como os meus avós, que eram funcionários públicos, tiveram que tratar do seu processo de reforma, em Lisboa, a minha mãe terminou o 10.º ano, no Liceu do Estoril. Findo este ano escolar, regressou a Coimbra, onde frequentou o 11º ano. O Natal de 1975 foi passado em Moçambique, onde os meus avós se tinham deslocado, na tentativa de recuperar alguns bens. Graças ao esforço e determinação do meu avô, ainda conseguiram trazer para Portugal as mobílias, num enorme contentor, e o carro, que só chegaram durante o ano de 1976.

            A minha mãe passou, então, a viver e a estudar definitivamente em Coimbra, tendo sempre ficado com a mágoa de nunca mais ter voltado a ver familiares muito próximos.

  

 

A família mais próxima da minha mãe.

 

 

Uma prima da minha mãe, o meu tio e a minha mãe.

 

 

 

A casa da minha mãe, em Lourenço Marques.

 

 

Carolina Santos

 

publicado por projecto9b às 10:07

Olá

Encontrei este blog por acaso

Também no colégio da Infantil ao 5º ano

Sou mais velha do que sua mãe mas andei por todos esses sitios e tem saudades

Só uma pequena correcção a Congregação chama-se da Apresentação de Maria

Um Abraço

Ana
Anónimo a 13 de Outubro de 2009 às 19:28

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