28
Fev 09

A Maria Espanhola

 

 

 

Maria de los Ciélos nasceu no ano de 1920, numa aldeia perto de Cáceres, em Espanha. Trabalhava com os seus pais no campo, com apenas 16 anos. Numa noite de Maio de 1937, ela e a sua família começaram a ouvir os habitantes da aldeia dizendo “Los guardillas de Franco estan de vuelta”. Nessa mesma noite fugiram para Portugal.

Quatro dias depois, chegaram à Zebreira, onde começaram todos a trabalhar para um senhor que tinha muitas propriedades e lhes arranjou uma cabaninha para estarem, até que arrendassem casa. Hoje agradece ao povo da Zebreira pela ajuda que lhe prestou para se fixar nesta terra.

Cada vez que vai visitar a sua terra natal, recorda a infância e como a Guerra Civil foi um período difícil da sua vida. Ainda se lembra como as pessoas eram maltratadas e por qualquer nadinha eram espancadas ou mortas. Daquela época, só se lembra das chacinas de Franco.

Hoje, é uma mulher com 89 anos, muito alegre, conhecida pelo apelido Maria Espanhola.

 

 

 

  Preso por esconder espanhóis

 

 

Manuel Costa e é o meu avô materno. Nasceu na Zebreira, em 1951.

Contou-me que o seu tio paterno acolheu em sua casa uma família de espanhóis fugidos da Guerra Civil Espanhola. Alguém do povo, para fazer mal, contou à PIDE que estavam espanhóis escondidos na Zebreira e, numa noite, começaram a revistar todas as casas. O meu tio apercebeu-se e escondeu os espanhóis no palheiro que era perto de sua casa. Quando a PIDE chegou lá a casa, não encontraram nada.

Mas ficaram desconfiados com o meu tio e levaram-no para Idanha–a-Nova, a um sargento da PIDE. Levou uma grande sova e ficou preso vários anos.

Também foram presos outros habitantes que ajudavam os espanhóis. Os que eram apanhados em Portugal, eram executados ou mandavam-nos de volta para Espanha e entregues ao exército de Franco.


A greve no lagar

 

Rosa Pereira, é a minha avó materna e nasceu em 1951, na Zebreira.

A sua mãe trabalhava, na altura da azeitona, no lagar da Zebreira, limpando os tapetes por onde o azeite era escoado. Como os trabalhadores já não recebiam o seu salário há algum tempo, decidiram organizar uma greve, que era ficar em casa uns dias, para parar a produção do azeite. Este escândalo provocou a intervenção da PIDE, que recoreu à violência, obrigando os trabalhadores a voltar ao seu trabalho.

Conta que se se juntasse um grupo de quatro ou cinco pessoas na rua, a PIDE chegava lá, empurrava-as e dizia “Dispersar, dispersar!”. Segundo a minha avó, faziam isso, porque pensavam que as pessoas estavam a fazer conspirações.

Diz também que, quando viam a PIDE a passar na rua, diziam “Olha, ali vão os orelhudos!” porque o Salazar tinha as orelhas grandes e as pessoas consideravam-nos como as tropas de Salazar.

Recorda que naquela altura as mulheres não eram bem vistas nos cafés ou a passear nas ruas. Diz que foi uma época da sua vida bastante difícil.

 


O contrabandista de fruta 

 

Emília Antunes é minha tia em 3º grau, pois é irmã da minha avó materna. Nasceu em 1922.

O seu marido era contrabandista de fruta, na época da Salazar. Deslocava-se à Espanha, sem passar na alfândega, para não pagar os impostos. Ia lá comprar fruta a baixo preço e vendi-a na Zebreira, obtendo assim muito lucro e “fugindo” dos impostos. Repetiu este procedimento durante muitos meses, até que foi descoberto pela PIDE, que o levou para um sargento que havia em Idanha-a-Nova, onde dois indivíduos lhe deram açoites com bastões e foi condenado a 9 meses de prisão.

Para esta mulher, a vida tornou-se um bocado negra, porque, sem o seu marido a trabalhar e ainda com 3 filhos pequenos, tinha que os alimentar. Não teve alternativa senão tirá-los da escola e ir com eles trabalhar em trabalhos bastante pesados, como partir brita com uma marreta.

 

Bruno Borges

publicado por projecto9b às 15:41

Fevereiro 2009
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
11
12
13

15
16
17
18

22
24
27


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

arquivos
mais sobre mim
pesquisar
 
blogs SAPO