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Mai 09

 

 “Um dia de Páscoa”

“Encontro-me deitado em cima do colchão, enquanto a terra vai caindo das palmeiras que formam o abrigo, e pelas janelas entra o vento e a poeira. Tudo isto porque me encontro tomando conta de um posto de rádio, algures numa tabanca na fronteira da Guiné. Comigo, há um grupo de combate, todos vivendo em abrigos tal como eu. Alguns dos abrigos quase a abater, incluindo o meu. Mas, não se pensava em nada trágico pois era dia de Páscoa e esse dia devia ser passado com alegria.
O dia começou quando um soldado saiu do abrigo, às 3 da manhã, para começar o seu turno de serviço. De repente, deu conta do abrigo prestes a abater e gritou para os dois camaradas, que lá estavam a dormir, os quais acordaram a tempo. Um deles saiu pela porta e o outro pela janela, ferindo-se ainda, mas ligeiramente. O abrigo abateu, com um grande estrondo. O prejuízo foi apenas material, apenas o dia de Páscoa ia ficando memorável para alguns. O resto do dia ia-se passando na mesma monotonia do costume, apenas ao almoço houve mais variedade de comida e mais um pouco de alegria. De tarde, realizou-se uma partida de futebol, a qual durou 30 minutos, pois o campo estava prestes a transformar-se num campo de luta, devido às faltas de alguns. Por isso, o furriel não deixou continuar o jogo. Depois, fomos jantar, o qual decorreu menos animado, ainda com os ânimos alterados do futebol. Passou-se assim um dia de Páscoa.”

Guiné, 29 de Março de 1970

O soldado: José Manuel Domingues dos Santos

 

O meu tio e os companheiros, no dia de Páscoa

 

Cristele Frade

publicado por projecto9b às 21:08

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