10
Jun 09

Somos o 9.º B da Escola Cidade de Castelo Branco.  Neste blog, publicaremos os nossos trabalhos realizados no âmbito da disciplina de Área de Projecto.

 

 

 
publicado por projecto9b às 23:20

 

 

O meu tio Victor João, aos vinte anos, iniciou o serviço militar, em Santarém, no dia 15 de Abril de 1971.
Depois da recruta, foi-lhe atribuída a especialidade de Transmissões, denominada de Operações de Mensagens.
Esta era uma especialidade de grande responsabilidade, pois tinha a ver com todo o mundo de comunicações e mensagens da vida militar, com graus de classificação como Muito Secretos, Secretos, Reservados e Confidenciais.
Para desempenhar as funções atribuídas pela sua especialização, era preciso reunir determinadas condições, como relata o meu tio:
“Tive conhecimento, mais tarde, de que a PIDE andou, em Rio Maior, a tirar informações de quem era o Vítor João Aguiar Fernandes Correia, não fosse haver alguma incompatibilidade política da minha pessoa ou família, com o poder político de então, para poder ter a especialidade que me tinha sido atribuída.”
No dia 15 de Outubro de 1972, embarcou no Aeroporto de Figo Maduro, num Boeing da Força Aérea, com destino a Nampula.
Desempenhou as suas funções de Operador de Mensagens do Exército, com o posto de Furriel Miliciano, no Comando Chefe da Região Militar de Moçambique, onde trabalhava em conjunto com elementos da Marinha Portuguesa, profissionais altamente qualificados na especialidade de comunicações, uma vez que tinham formação a nível da NATO, sob o comando do General Comandante-Chefe Kaúlza de Arriaga, tendo tido, como camaradas, oficiais bem conhecidos dos meandros políticos de hoje, como o Capitão Mira Amaral, o Major Tomé, o Capitão Jaime Neves dos Comandos e muitos outros que por lá passaram, bem conhecidos.
Um dos momentos mais marcantes da sua permanência, em Nampula, passou-se num dos dias em que estava de serviço. De um momento para o outro, houve uma ordem superior para que as portas do Quartel-General fossem encerradas, sem se saber quais os motivos para tal procedimento. Poucos momentos depois, soube-se os motivos: havia uma manifestação de toda a população da cidade de Nampula, por via de um manifesto que o Bispo de Nampula, Dom António Vieira Pinto, havia escrito, e que fora tornado público, e onde este defendia as políticas do movimento da Frente de Libertação de Moçambique, a FRELIMO, em detrimento das posições da defesa nacional. Foram momentos de grande tensão, tendo inclusive havido uma distribuição de armas pelos próprios militares dos serviços administrativos do Quartel-General, “não fosse o diabo tecê-las…”
   A sorte e salvação do Bispo de Nampula deveu-se a uma pronta e eficaz intervenção da Força Aérea Portuguesa. Veio-se mais tarde a saber que o então Comandante da Região Aérea de Nampula, General Diogo Neto, ao tomar conhecimento da situação, conseguiu recolher Sua Eminência, a tempo de a colocar a salvo num avião, que veio a aterrar entre a Beira e Lourenço Marques, colocando assim a salvo a vida de Dom António.
            A vida militar em Moçambique também proporcionou momentos de lazer e convívio muito agradáveis, dos quais, salienta o meu tio, as férias (25 dias), em Lourenço Marques, foram inesquecíveis.
            Terminado o tempo de comissão de serviço, embarcou de avião de Moçambique, no dia 31 de Outubro de 1974, e cheguei ao Aeroporto de Figo Maduro, no dia 1 de Novembro dia de Todos os Santos, pela uma hora da madrugada.

            Terminou oficialmente o serviço militar, em Dezembro de 1974.

 

 

Especialidade de Transmissões

 

Cemitério

 

O melhor amigo… “Kaiser”.

Nampula – 1973

Convívios – Batalhão de Transmissões

 

Nampula: “ O Árabe de Rio Maior”, 1973
                                                                                                Joana Sousa
publicado por projecto9b às 23:10

08
Jun 09

 

 “Resposta à tua voz”

“O sol já se tinha escondido e as trevas avançavam, cobrindo tudo com o seu manto escuro. Recolhi ao abrigo que era também ao mesmo tempo dormitório e posto de rádio. Deitei-me na cama mas, nesse momento, entra alguém no abrigo falando rapidamente e dizendo: Rápido, liga o rádio, então a ouvir-se rebentamentos na direcção de Ualicunda; De um salto estou sentado em frente ao posto de T.S.F e manobrando os botões ligo o rádio. Logo, um ruído da estática sai do aparelho inundando o silencioso abrigo. Junto com os barulhos da estática e outros ouvia-se fracamente uma voz que dizia: Não consigo ouvir a sua transmissão, deve chamar Alfa Kilo 7; Então, outra voz um pouco mais nítida respondeu: Afirmativo, vou chamar o mesmo. Atenção Alfa Kilo 7 aqui Alfa bravo 3 chama; Aquela chamada era para mim e imediatamente pego no micro do aparelho e respondo: Alfa Kilo 7 escuta Alfa Bravo 3; Do aparelho vem a resposta: Afirmativo, informo que estou sofrendo um ataque. Deve informar se pode dar ajuda; Então, antes de responder, digo aos soldados que se encontram perto de mim para se prepararem. Um soldado sai correndo e aproximo o micro e respondo: Estou preparado, dê-me posições;
A resposta chega misturada com outros ruídos: Afirmativo, posições 34, 36 e 39, rápido; Enquanto recebia a transmissão escrevia num papel e por cima do meu ombro, um oficial lê e dá as ordens. Saindo também em corrida, enquanto eu ligava novamente o rádio para dizer que iam começar a disparar e que continuava à escuta. Apenas tive uma resposta: afirmativo! Esta foi abafada por um estrondo terrível e outros segundos depois. Os obuses estavam a disparar, enquanto o chão termia e o abrigo ameaçava cair-me em cima por cada disparo. Um zumbido na rádio anunciava nova transmissão, pus os auscultadores e a voz chegou como que de mais perto, enquanto os disparos dos obuses se ouviam mais abafados mas tremendo tudo. A voz nos auscultadores dizia: Novas posições; Apenas respondi afirmativo. E ao mesmo tempo escrevi num papel os números das posições e dei ao oficial que se encontrava perto de mim, o qual saiu rapidamente. Os disparos continuavam com as explosões ensurdecedoras, tremendo tudo, enquanto eu olhava para o tecto do abrigo com medo que este caísse e não se aproveitasse nada. Pouco depois, ouviu-se uma voz na rádio que dizia que o inimigo se tinha retirado. Estava tudo calmo e em seguida desligo o aparelho. Nós sentíamos uma pontada de contentamento por podermos ter dado ajuda a camaradas afastados. Dentro do abrigo, acalorado, saio para fora. Corria uma leve aragem da noite, estava tudo calmo…”

Guiné, 23 de Junho de 1971

O soldado: José Manuel Domingues dos Santos


O meu tio trabalhando na rádio

 

 


O meu tio e um camarada

 

Cristele Frade

publicado por projecto9b às 20:28

04
Jun 09

 

         A minha mãe em 25 de Abril de 1974 tinha 11 anos e estudava num colégio interno de freiras, situado em frente ao jardim S. Pedro de Alcântara (bairro alto, Lisboa).

         Nesse dia não houveram aulas porque os professores não vieram, estavam apreensivos e ninguém saía à rua com medo do que poderia advir de toda a situação que se passava nas ruas da baixa Lisboeta.

Todas as portas e gradeamentos do colégio foram fechados.

Nas primeiras horas da manhã ninguém sabia o que estava a acontecer, o Rádio Clube

Português transmitia comunicados e músicas diferentes.

A minha mãe e algumas colegas, às escondidas, foram espreitar à janela para ver o movimento da rua e uns senhores que trabalhavam nuns escritórios do edifício em frente, apavorados, mandaram-nas recolher e fechar as janelas, continuaram sem nada saber.

Através da rádio acompanhavam o desenrolar da situação.

No dia seguinte durante as aulas os professores relataram o sucedido.

A partir daí vivia-se um clima de suspeição por ser um colégio de freiras podia haver retaliações. Porque era uma revolta contra o estado actual e a igreja era considerada fascista.

A ocupação das instalações da rádio Renascença fora um exemplo disso (os meus avós de Rio Maior vieram até Lisboa juntamente com outras pessoas contestar este facto).

No domingo seguinte, a minha mão foi passear com o tio e viu de longe os tanques de combate e todo aquele aparato no convento do Carmo.

 

 A minha mãe no jardim do colégio.

 
 
 Joana Sousa
publicado por projecto9b às 17:39

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