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Mai 09

Este é o relato da vida na aldeia do Maxial do Campo, contada pelo meu tio Amadeu Martins:

“Na minha aldeia, as pessoas levantavam-se todos os dias ao nascer do sol e tomavam o pequeno-almoço, que costumava ser sopa de nabo ou então de couve. Os pastores saíam com os rebanhos para as pastagens, mas antes, de madrugada, já tinham ido cortar mato para fazerem a cama dos seus animais. Os homens trabalhavam de sol a sol e as mulheres tratavam da vida da casa, dos animais e da horta. Vivia-se essencialmente da agricultura e da pastorícia.
Os porcos eram comprados de pequenos e depois eram bem alimentados, para, no Inverno, serem mortos e se fazerem enchidos. Parte do porco ia para a salgadeira, onde era conservado, para dar para o resto do ano.
Havia um grande espírito comunitário, como por exemplo na colheita da azeitona, no desencamisar a maçaroca do milho e no moer o centeio e o trigo. Isto era feito por diversas pessoas da aldeia e depois trocavam alimentos entre si.
Nas noites de Verão, as mulheres juntavam-se, umas quantas em cada rua a fiar, o linho, com os filhos à sua volta a brincar. Havia um forno comunitário, onde as mulheres da aldeia coziam o pão, um moinho movido com água do ribeiro e um lagar comunitário. Quando estava a sair o azeite, fazia-se a tibórnia: molhava-se o pão torrado em azeite ainda quente.
As pessoas vinham à cidade uma vez por ano ou então não vinham. O seu meio de transporte era o burro ou, muitas das vezes, vinham a pé. Naquela altura, ia uma peixeira à aldeia, semanalmente, com um cesto à cabeça, a vender sardinhas e chicharros. Uma sardinha dava para 3 ou 4 pessoas.
As mulheres iam à fonte com talhas à cabeça. As raparigas mais novas, nestas idas à fonte, aproveitavam para namoriscar. Os jovens, quando começavam a namorar, faziam-no com a rapariga à janela. A autorização dos pais da rapariga, muitas vezes dependia dos bens que cada um tinha. Contava as oliveiras, os terrenos…
Na saúde, as pessoas tratavam-se com chás, mesinhas e coisas naturais/caseiras. Só quando estavam num estado muito adiantado da doença é que iam para o hospital. Para se deslocarem ao hospital iam de carroça e só mais tarde é que passou a haver ambulância, que era chamada por um único telefone público. Muitas das vezes, quando as pessoas estavam próximas da morte, tomavam canja de galinha.
Relativamente aos nossos tempos livres, só os havia no domingo ou em dias de festa. Jogávamos ao pião, ao berlinde e íamos aos pássaros com o costil. As pessoas iam à missa com o fato domingueiro. Os homens iam para a taberna ou então andavam de adega em adega, enquanto que as mulheres cavaqueavam entre elas. No Verão, íamos para a ribeira tomar banho, enquanto as nossas mães lavavam a roupa. As raparigas começavam desde muito novas a ajudar nas lides caseiras, ficavam em casa a bordar, ou a fazer bonecas de farrapos, com as quais brincavam, quando tinham tempo. As mulheres casavam aos 16/18 anos e tinham sempre muitos filhos.
A escolaridade era até à 4ª classe, mas só algumas pessoas a concluíam. A maior parte dos professores eram regentes, só tinham a 4ª classe. A educação era muito violenta. Quando os alunos não faziam os deveres em condições ou se portavam mal, levavam reguadas. O meu pai foi a 1ª pessoa a fazer a 4ª classe e escrevia cartas, muitas das vezes para as namoradas daqueles que não sabiam ler nem escrever. Eram poucas as pessoas que acabavam a 4ª classe.
A maior parte das mulheres não iam à escola e as que iam faziam apenas a 1ª ou a 2ª classe. As raparigas mais velhas nem sequer iam à escola, porque tinham que tratar dos irmãos.”

 

 

Sara Morera

publicado por projecto9b às 20:41

     A minha avó materna

 

      Maria de Jesus Fraqueiro Coelho Afonso nasceu a 8 de Abril de 1944, em Aldeia de Santa Margarida, concelho de Idanha-a-Nova.

      Contou-me que a sua alimentação era à base do que cultivava: batatas, cebolas, feijões. Naquele tempo, cultiva-se pouco, porque toda a gente fazia horta, sobrando poucos terrenos.

      Comiam "sopas de cavalo cansado", que era uma tigela com água, vinho e açúcar, a que juntavam pão centeio.

      Na aldeia havia uma mercearia e uma sardinheira e, quando podiam, compravam uma sardinha, que geralmente tinha de dar para três pessoas.

      Quanto à moda, disse-me que tinha duas mudas de roupa, a do trabalho e a dos domingos, a qual levava à missa e aos bailes.

      Os primeiros sapatos que teve foram ao doze anos e eram feitos de farrapos.

      Como não haviam luz nem água, tinham candeeiros a petróleo e água tiravam-na dos poços.

      As pssoas acordavam por volta das seis horas da manhã e deitavam-se logo que se fazia noite.

      A minha avó só ia à escola uma vez por semana, pois, nos outros dias, tinha de guardar as ovelhas, das quais tiravam leite para fazer queijos para venda.

      Quanto à medicina, na aldeia não havia nenhum médico e, sempre que precisavam de qualquer coisa, montavam-se no burro e iam a Idanha-a-Nova.

      Nos tempos livres, a minha avó ia a bailes e, enquanto guardava as ovelhas com os seus irmãos, montavam-se nelas e faziam corridas.

 

 

Rodrigo Gonzalez 

 

 

 

publicado por projecto9b às 20:39

"Eu, José Matos, emigrei para Alemanha, em 1960.

Emigrei por várias razões. Uma delas foi, como era comum em quase toda a gente que emigrava, para procurar melhores condições de vida. Uma segunda razão, pela qual emigrei, foi que eu não concordava com algumas ideias e leis do Governo de Salazar e comecei a ser perseguido pela PIDE. Ora, como estava a ser perseguido pela PIDE e como não queria ser preso, tive de fugir e então aproveitei e fui para a Alemanha.

Depois de lá estar, ajudei dois amigos meus a emigrar também. Foram eles o Sérgio Augusto Vilaça Ferreira (avô do Ivo) e o Manuel Machado."

 

Eu, com o meu amigo Sérgio Vilaça e família, já na Alemanha

 

 

Ivo Oliveira

publicado por projecto9b às 20:25

O meu tio João tinha 17 anos e frequentava na época, o 6º ano do liceu, quando se deu o 25 de Abril, ele nos vais dizer o seu testemunho:

 

«Tive conhecimento do que se estava a acontecer através do meu professor que na manhã de 25 Abril entrou eufórico pela sala de aula com um rádio a pilhas de baixo do braço.

Durante a aula, íamos ouvindo as notícias que consistiam na divulgação dos factos acontecidos e perspectivas daquilo que iria acontecer. E o que é que acontecera?

Durante a madrugada e depois de terem sido dados sinais, via rádio, as músicas, “Grândola Vila Morena” e “Depois do Adeus”, um grupo de militares. Chefiados pelos denominados Capitães de Abril, marcharam sobre Lisboa com o objectivo de revolucionar o país, necessitando, para isso, de derrubar a ditadura fascista. Com a tomada da rádio, da televisão e do Quartel do Carmo, os Capitães de Abril anunciam ao povo português e ao mundo que a ditadura caíra, que iria haver democracia, liberdade, igualdade de oportunidades e que a Guerra Colonial terminaria.

Vivi o 25 de Abril de 1974 e os dias, meses e anos subsequentes, com muita alegria e esperança de um futuro melhor, quer para nós portugueses, quer para o mundo. Com este passo histórico, senti e notei que, sobretudo os outros países europeus, nos começaram a ver com outros olhos e a vida dos portugueses em geral melhorou em muitos aspectos. Verifiquei também que, nestes primeiros momentos da Revolução, os apelos à união, à concórdia e à junção de esforços e ideias eram constantes. Com muito entusiasmo, participei em manifestações, comícios e sessões de esclarecimento, dinamizados por partidos políticos diferentes. Gostava de os ouvir a quase todos.

O 25 de Abril não me apanhou de surpresa. Aquilo que aconteceu já era esperado por mim e por muitos outros. Foi naquele dia, mas poderia ter acontecido antes ou viria a acontecer mais tarde. No meio de tudo isto, surpreendeu-me sim a forma ordeira e sensata como decorreram os factos.»

  

Fig.1- Os jovens em manifestação.

João André

publicado por projecto9b às 12:01

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