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Mai 09

Na década de 50, entre 1954 e 1957, os meus avós maternos, Dulce Borges e Alberto Chorão dos Santos, foram transferidos de Lourenço Marques (actual Maputo), no Sul de Moçambique, para Quelimane, no Centro do mesmo país, em comissão de serviço. Eram ambos funcionários dos Caminhos-de-Ferro, a maior empresa estatal do país.

Comparativamente a Lourenço Marques, Quelimane era uma cidade com pouquíssimas condições, já que não possuía água canalizada, um problema para um casal com um filho de 16 meses, o meu tio Alberto Jorge. Para beber, a minha avó filtrava e fervia a água da chuva. Para lavar a roupa, limpezas e banhos, os meus avós utilizavam a água do poço da sua casa, dado que Quelimane ficava ao nível do mar.

Como na cidade não havia legumes à venda e a minha avó necessitava deles para a alimentação do quotidiano, o meu avô decidiu pedir ao condutor do autocarro, que todas as semanas ligava Quelimane à cidade mais próxima, perto de Tete, o favor de lhos trazer. Para isso, arranjou um caixote com um cadeado, onde vinham os legumes para uma semana e que a minha avó dividia com uma professora do 1.º Ciclo, a Sr.ª Dona Victória, que tinha duas meninas da idade do meu tio e que ainda hoje escreve e publica as suas poesias.

Naquela região, em que se registavam 40º C de dia e de noite, a minha avó guardava os alimentos num frigorífico a petróleo, que diz ter sido muito bom, da marca Electrolux – um paradoxo, porque a designação desta marca faz referência à electricidade.

Devido ao calor excessivo, as pessoas não podiam sair à rua durante a noite, em Quelimane, pois os mosquitos picavam, mesmo por cima da roupa, o que era muito perigoso, dado que as picadas do mosquito anofelix provocavam o paludismo, verdadeiramente mortal. O irmão mais velho da minha avó faleceu vítima desta doença. Mesmo ela sofreu várias crises, tendo tido febres muito elevadas que provocavam ora calor extremo, ora frio excessivo. Para evitar esta doença, administrava-se Quinino.

As elevadas temperaturas da região obrigavam a que os funcionários públicos tivessem um horário único de trabalho, das sete da manhã à uma da tarde. Os edifícios centrais dos Caminhos-de-Ferro eram dotados de ventoinhas de tecto, que faziam com que a minha avó usasse um pisa-papéis sobre os seus documentos.

Após esta comissão de três anos, os meus avós regressaram a Lourenço Marques. 

A minha avó aos 7anos, mascarada no Carnaval.

 

 

Carolina Santos

 

publicado por projecto9b às 10:14

 

A minha avó, a minha mãe e o meu tio Alberto Jorge

na 1ª Comunhão da minha mãe.

 

 

            A minha mãe, Maria Eduarda, nasceu em Lourenço Marques, Moçambique, onde viveu até Dezembro de 1974.

            Ela recorda esta época como o período de ouro da sua vida, pela intensidade das relações humanas, das experiências diversificadas e do exotismo do espaço.

            Até aos três anos, e porque a minha avó era funcionária dos Caminhos-de-Ferro de Moçambique, a minha mãe passava os dias com as tias Titicas, Zezinha e Aidinha, e com os primos e o irmão Joca. Aos três, ingressou no Colégio D. António Barroso, da Congregação do Sagrado Coração de Maria, que frequentou até aos quinze anos. A minha mãe lembra-se, ainda, com um carinho especial, de ter frequentado o ensino pré-primário, bem como aulas de piano e ballet, actividades extra-curriculares, que o colégio disponibilizava, entre muitas outras.

            Aos fins-de-semana, costumava ir à praia com a família e amigos. Numa zona de dunas, havia uma colónia de macacos que roubava os lanches que se levassem. Por isso tinha que ficar sempre alguém a vigiar as toalhas. Conta ainda que só podia ir à praia da parte da manhã, porque, com o aquecimento das águas do mar, à tarde apareciam “garrafas-azuis”, um invertebrado marinho que se enrolava no corpo dos banhistas, provocando dores muito fortes. Outra actividade de fim-de-semana era andar de barco à vela, junto à costa.

            Naquele clima tropical, a alimentação baseava-se em frutos exóticos, marisco, refrescos e gelados, bem como saladas e pratos frios.

            Como os meus avós trabalhavam, a lida da casa ficava ao cuidado do cozinheiro e do “mainato”, o empregado que tratava da roupa e da limpeza. Estes dois empregados habitavam num anexo da casa e usufruíam de alimentação e banhos diários, para além do ordenado mensal. A minha avó fazia questão de que os seus empregados frequentassem a escola todos os dias da semana às cinco da tarde. Para isso, ela comprava-lhes os livros e os cadernos.

            O turismo que a minha mãe fazia era com destino a estâncias balneares próximas de Lourenço Marques, o Bilene e a Ponta do Ouro, ou à montanha, a Namaacha, cuja água de excelente qualidade entrava na cadeia de fabrico da melhor Coca-Cola que a minha mãe diz já ter bebido. Na Namaacha, ela, o meu tio e os primos andavam a cavalo, passeavam pela cascata e iam à caça. Outra viagem que a minha mãe fazia com regularidade era a Johannesburg, na África do Sul, uma cidade, na altura, de primeiro mundo, embora se verificasse o Apartheid.

            Até 1974, Moçambique não dispunha de serviço de televisão, pelo que a família da minha mãe privilegiava uma vida baseada no convívio social e na diversificação de actividades. Existia sim, um serviço de rádio de grande qualidade, a emissora da Rádio Clube de Moçambique, importantíssima, na medida em que foi o meio de difusão dos acontecimentos do 25 de Abril, em Portugal.

            Após o 25 de Abril de 1974 e terminado o ano lectivo, muitos foram os amigos da minha mãe que abandonaram Moçambique em direcção a Portugal, África do Sul e Brasil. Os meus avós decidiram, inicialmente, que não sairiam de Moçambique. Contudo, duas datas na história deste período fizeram-nos mudar de ideias: o 11 de Setembro e o 21 de Outubro de 1974. Estes dois momentos foram de sublevação das populações negras dos arredores da cidade, de tal modo graves, que levaram a que os portugueses decidissem abandonar Lourenço Marques. De facto, as ruas foram invadidas por multidões armadas de catanas e petróleo, que utilizaram para matar sangrentamente ou incendiar carros com as pessoas lá dentro.

            Blindados e tanques começaram a patrulhar as avenidas e o clima de desconfiança estava instaurado.

            Dada esta situação, os meus avós, como a maior parte dos portugueses, decidiram abandonar Moçambique, devido à falta de segurança e à instabilidade política. A minha mãe ainda iniciou o ano lectivo 74/75, em Lourenço Marques, tendo terminado o primeiro período, em Coimbra. Contudo, como os meus avós, que eram funcionários públicos, tiveram que tratar do seu processo de reforma, em Lisboa, a minha mãe terminou o 10.º ano, no Liceu do Estoril. Findo este ano escolar, regressou a Coimbra, onde frequentou o 11º ano. O Natal de 1975 foi passado em Moçambique, onde os meus avós se tinham deslocado, na tentativa de recuperar alguns bens. Graças ao esforço e determinação do meu avô, ainda conseguiram trazer para Portugal as mobílias, num enorme contentor, e o carro, que só chegaram durante o ano de 1976.

            A minha mãe passou, então, a viver e a estudar definitivamente em Coimbra, tendo sempre ficado com a mágoa de nunca mais ter voltado a ver familiares muito próximos.

  

 

A família mais próxima da minha mãe.

 

 

Uma prima da minha mãe, o meu tio e a minha mãe.

 

 

 

A casa da minha mãe, em Lourenço Marques.

 

 

Carolina Santos

 

publicado por projecto9b às 10:07

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