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Mai 09

A minha avó materna, Deolinda de Jesus, nasceu na aldeia de Rochas de Baixo, freguesia de Almaceda, concelho de Castelo Branco, no ano de 1928.

Contou-me como viveu a sua mocidade na aldeia.

 

«Nasci numa família pobre, tinha 7 irmãos, mas 2 deles faleceram a nascença devido ao atraso na medicina.

Havia poucas vacinas e poucos medicamentos, raramente íamos o médico e, quando tínhamos alguma doença, éramos tratados pelo barbeiro da aldeia. Ele ainda me chegou a arrancar um dente sem anestesia nem nada.

A nossa alimentação era muito pobre. Comíamos sopa com conduto. Criávamos um porco que tinha de durar para todo o ano. Bebíamos leite de cabra e fazíamos queijo. Comíamos ovos das poucas galinhas que criávamos. Apenas os homens bebiam vinho. Só comíamos o que criávamos, não havia dinheiro para comprar coisas. Muitas das vezes, uma sardinha tinha de ser dividida por três pessoas.

Os nossos tempos livres eram, aos domingos, ir até ao chafariz, ir às romarias e à missa. Já os homens jogavam às malhas e às cartas.

Nenhum dos meus irmãos foi à escola, os meus pais não tinham condições.

A nossa roupa era pouca e dividia-se em duas partes: tinha duas mudas de roupa para o trabalho e uma para o domingo.

Não tínhamos transportes. Quando queríamos ir a algum lado, tínhamos que ir a pé, íamos sempre a pé às festas.

A vida hoje em dia é totalmente diferente. Os adolescentes não têm de fazer esforços, nem trabalhar, nem nada. E têm tudo.»

 

Ana Rita Faustino

 

publicado por projecto9b às 12:48

 

O meu avô chama-se Eugénio Conceição Gonçalves e esteve na Guerra do Ultramar. Partiu para Angola, dia 21 de Janeiro de 1967, no barco Vera Cruz, e regressou, no dia 27 de Março de 1969.

 

 A primeira semana foi passada no agrupamento Grafanil (Luanda), 8 dias que se passaram a dormir ao relento, por vezes chovendo.

Passados esses dias partiram para Bessa Monteiro, aquartelamento isolado onde permaneceram 15 meses. Estava cercado por arame farpado e armadilhamento. Era necessário fazer 100 km para se reabastecerem, a viagem era longa e feita em JMS, jipes e Bartlie. Às vezes escorregavam por uma ribanceira e ficavam lá até ao dia seguinte. Por vezes, o caminho era tão mau que se demorava 24 horas a fazê-lo. Em Abmizente só se encontrava um local público de brancos.

 

 

 

 

Passados esses 15 meses, mudaram-se para Maquela do Zombo, uma vila perto da fronteira, com pouca população e com muito comércio, feito pelos brancos. Nessa época, fazia anos que tinha arrebentando a Guerra em Angola e foram informados de que iriam ser atacados por 6 mil pessoas. No quartel, estavam cerca de cento e poucas pessoas. Esse quartel já tinha muralha e postos de vigia e ali perto havia um posto de radar que também estava a cargo do batalhão do meu avô. Nessa noite, arrebentou uma mina e todos ficaram alerta, a pensar que já era a guerra e disparar para o ar. Mas, por fim, viram que a mina tinha arrebentado por causa de um javali.

Durante 15 dias, não houve carne nem pão, devido à avaria dos aviões e helicópteros. Tinham de se deslocar a uma vila próxima, para se alimentarem, mas comiam sempre o mesmo arroz de pimento. Durante esse tempo, tinham de lavar o atrelado do lixo, num pequeno rio que ali se encontrava, onde existia um crocodilo.

 

                                                       

   

O meu avô era operador de transmissores e teve de ir montar um rádio num suporte de uma viatura para uma coluna que ia sair para outro quartel. Quando iam a caminho, sofreram uma emboscada: roubaram-lhes o rádio, incendiaram carros e mataram pessoas. Foi morto o motorista de um Bartlei que era um carro principal. Nesse carro principal, seguia um indivíduo que tinha sido castigado e não tinha carta de condução, mas mesmo assim conseguiu levar o Bartlei e ir pedir ajuda ao quartel mais próximo, que ficava a 30 km de distância.

Passado algum tempo, foram até Luanda e embarcaram novamente no barco Vera Cruz. Foi uma viagem difícil, com um mar muito agitado. O Vera Cruz parecia um berço. Quando avistaram terra o “nosso coração logo se alegrou, tinha chegado ao rumo donde abalei” – palavras do meu avô.   

 

 

Jessica Marques

publicado por projecto9b às 12:22

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