29
Abr 09

 

Barbaído uma pequena aldeia da freguesia de Freixial do Campo, conselho e distrito de Castelo Branco.      

Nos anos 50, a alimentação nas aldeias fazia-se essencialmente da agricultura e dos animais que a pessoas criavam. O meu pai contou-me que durante a semana a alimentação era feita essencialmente pela sopa, depois lá se comia um bocado de pão e queijo, toucinho salgado e enchidos.

O meu pai lembra de estar escondido à espera que a galinha pusesse o ovo para o comer. Como naquela altura o meu avô não tinha terra para semear melancias, o meu pai ia a ver das melancias onde as havia. Semanalmente, ia lá um homem de bicicleta a vender peixe e a minha avó comprava-lhe sardinha. O meu pai ainda se lembra que naquele tempo uma sardinha era para três pessoas e a pessoa que fica com a cabeça comia mais pão.

Quando se comia algo melhor era pelas festas, como por exemplo bolos e carne fresca.

O meu pai, nos seus tempos livres, ia à serra do São Braz a apanhar pinhas para acender o lume, ajudava a minha avó na horta, jogava à bola e andava de bicicleta.

 

  

O meu pai, na horta do Barbaído, com a minha avó

 

Ainda ajudava o seu primo Manuel Baptista, a guardar as cabras do seu pai. Na marmita, o meu primo levava pão frito, ovos fritos e bebia leite fervido com um seixo quente. Depois cortava pão aos bocados e, como não havia colher, comia com um grafo feito de rosmaninho.

A saúde naquela altura fazia-se essencialmente por mezinhas (chás, batatas na testa para as enxaquecas). Ia também pela escola, Um vez por ano, uma carrinha de apoio aos tuberculosos parava na ponte do rio do Tripeiro, onde todos os meninos, incluindo o meu pai, iam a fazer um exame aos pulmões (micro) e também eram vacinados.

Na aldeia do meu pai, havia uma escola que era repartida pelas quatro classes. Para se passar de classe, era necessário ir à escola da sede da freguesia. O exame da quarta classe era feito na cidade de Castelo Branco. O meu pai realizou esse exame na Escola do Castelo.

O pai lembra-se que havia três fatos. O primeiro fato era o de trabalho, para trabalhar durante semana, por vezes com remendos. Havia outro para os Domingos, que era para levar há missa. Este fato tinha o nome de “Fato Domingueiro”. E ainda havia outro para as festas.

Naquela época já havia a camioneta de carreira, que se apanhava na ponte do rio do Tripeiro. Havia duas carreiras, uma delas passava pela povoação do Salgueiro e outra passava na povoação do Salgueiro e na povoação do Palvarinho. O meu pai gostava mais de ir na carreira que ia pelo Palvarinho, porque ia mais tempo a cavalo até Castelo Branco. Ele ainda se lembra de andar de carroça do Barbaído para Castelo Branco e vice versa…  

A aldeia tinha duas telefonias, uma do Sr. Anacleto Braz e outra do Manuel Barata.

 

Filipe Rodrigues

publicado por projecto9b às 17:56

27
Abr 09

        O meu bisavô materno, chamado Alfredo Seborro, emigrou para França, em Maio de 1964. Vivia no Rosmaninhal, pertencente ao Concelho de Idanha -a-Nova e, nessa altura, ele e mais uns vizinhos da aldeia decidiram emigrar para França. Segundo o que a minha avó materna me contou, o meu bisavô e os outros vizinhos foram a ”salto”, clandestinamente. Não podiam passar nas fronteiras, porque não tinham documentos e seriam presos.  

       Tiveram que pagar sete mil escudos cada um, (naquela época era muito dinheiro) ao “passador”, que era um indivíduo que sabia caminhos secundários e tinha vários conhecimentos por onde passar, evitando fronteira e lugares de fiscalização. Ficava incumbido de os fazer chegar até França, o seu destino, mais propriamente à cidade de Tours.

        A viagem demorou 15 dias, porque a maioria do tempo que andavam era de noite, pelos campos, segundo as indicações que o “passador “ lhes dava, pois de dia o grupo mantinha-se escondido no meio do mato.

         Quando havia zonas em que o “passador” via que não havia perigo de serem apanhados, também os levava de carro. O meu bisavô sofreu muito, durante esta longa viagem de 15 dias. Passou muita fome, mas lá conseguiu chegar ao seu destino.

Chegado à cidade de Tours, em França, o meu bisavô começou logo a trabalhar nas obras e arranjaram-lhe os devidos documentos.

 

 

 

O meu bisavô Alfredo Seborro

 

 

        Em Setembro de1969, os meus avós maternos, João e Maria, a minha bisavó Mariana e a minha mãe Vivina, que tinha apenas um ano de idade, juntaram-se ao meu bisavô, em França.

        Foram do Rosmaninhal até Piedras Albas, Espanha, a pé, pelo campo, com a minha mãe ao colo. Depois um amigo levou-os de carro até Arroyos, onde apanharam o comboio até França (Tours). O único documento que tinham era o Bilhete de Identidade, mas tiveram sorte, pois ninguém lhes pediu nada.

        Quando chegaram, já o meu bisavô tinha uma casinha onde moraram todos juntos. O meu avô João começou logo a trabalhar numa fábrica dos pneus “Michelin” e a minha avó Maria começou a trabalhar nas limpezas, como mulher-a-dias. Enquanto isto, a minha bisavó Mariana ficava com a minha mãe, em casa.

Os meus bisavôs voltaram para Portugal, em Agosto de 1974, quando a minha mãe completou 6 anos de idade, para começar a escola primária, enquanto os meus avós João e Maria ainda ficaram em França mais uns anos, para ganhar mais um dinheiro extra.

 

 

 

A minha bisavó Mariana Folgado

 

 

 

O meu avô João Pina

 

 

 

A minha avó Maria Seborro

 

 

 

 

A minha mãe Vivina Pina

 

 

 

 

Nuno Carvalho

publicado por projecto9b às 22:27

23
Abr 09

 

“Eu fui o sétimo filho de um total de nove. O meu pai era guarda-rios e a minha, além de mãe, era agricultora e dona de casa.

Tempo difícil, pois nasci em 1962, o dinheiro que entrava em casa era o vencimento do meu pai, algumas gorjetas do lugar que se exercia como secretário na Junta de Freguesia local e uma especialização “caseira” que consistia em fazer projectos de vivendas, que eram assinados por um engenheiro, em que a assinatura deste valia metade do preço do projecto. As cópias eram tiradas através do sol e amoníaco.

Ao ser o sétimo filho, alguns mais velhos, já estavam fora a estudar. Era esta a política de casa: dar a possibilidade de estudo a todos. Como o dinheiro que entrava em casa não dava para extravagâncias, eu só tinha calçado para ir à escola e para os Domingos, todo o resto do tempo andava descalço, tanto nas brincadeiras, como no trabalho.

Embora fossemos miúdos com seis/sete anos já trabalhávamos, pois tínhamos que ajudar, mesmo que pouco, na agricultura e a guardar cabras.

Na minha casa nunca faltou pão na mesa. Comi pão de trigo, pela primeira vez, aos sete/oito anos. Na mesa, ao pequeno-almoço, havia broa (pão de milho), café de cevada, leite de cabra e queijo fresco feito pela minha mãe. Às vezes, havia ovos fritos e manteiga.

O almoço era farto, embora não houvesse grande variedade de comida. Havia sempre pão, sopa e segundo prato. A carne era principalmente de porco, galinha e coelhos (tudo caseiro). A variedade de peixe era consoante o preço e o resto do dinheiro disponível, pois as despesas com os irmãos a estudar fora (Castelo Branco) era muita.

Lembro-me da necessidade de uma sardinha ser dividida por dois, em que nenhum queria a parte da cabeça.

Embora com muitos filhos e muita despesa, a nossa família foi sempre unida. Os mais velhos completaram o 5º ano (9º ano actual), enquanto sob jurisdição dos pais. Depois disso, arranjaram emprego e continuaram a estudar.

O irmão mais velho emigrou e todos eles começaram a ajudar financeiramente os meus pais e, indirectamente, a educação e a vida dos mais novos.

Viver na aldeia era divertido, saudável e havia uma cumplicidade dentro de casa e com os vizinhos.

Todos os dias à noite, após o jantar, eu e os meus vizinhos mais novos brincávamos na rua, fazendo jogos tradicionais como as escondidas, jogo do prego, jogar à bola, entre outros.

Aos Domingos, não podia jogar a bola, pois estragava o calçado e, ao chegar assim a casa, os meus pais batiam-me.

Lembro-me da primeira televisão que veio para a aldeia e de ver Portugal ser campeão do Mundo em hóquei em patins, que era o desporto mais popular na altura.

Lembro-me também de, num Domingo, ter caído na calçada, numa brincadeira, e ter rompido umas calças novas. Não foi preciso o meu pai bater-me para eu desatar a chorar, pois roupa nova era rara, muito rara. A minha roupa era principalmente feita pela minha mãe e irmãs mais velhas, de restos de tecidos ou de roupa usada que ainda dava para aproveitar.

Como a aldeia onde morava era pequena, não havia carros nem motorizadas. Quando vinha um carro à aldeia, era uma correria de todos os miúdos, era uma grande festa.

Nunca tive problemas de saúde, além das doenças normais, como por exemplo, a papeira e o sarampo. Quando precisava de tomar alguma vacina, ia numa carrinha de caixa aberta, na carroçaria, mais os outros miúdos e um adulto, para tomar conta de nós. Íamos à vila de Pampilhosa da Serra ou a outro lugar marcado e era um dia de festa.”

 

 

                  

     Os irmãos mais novos e, no lado esquerdo, o meu pai.

 

                                                                            

                                                                       Catarina Patrocínio

 

publicado por projecto9b às 23:18

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