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Mai 09

Testemunho de Maria Manuela Costa:
No dia 25 de Abril de 1974, era eu uma jovem que frequentava o 6º Ano (equivalente ao 10º ano) do Liceu Nun’Álvares, em Castelo Branco.
Quando me levantei, nesse dia, algo de estranho se passava…
A minha mãe, tal como fazia todas as manhãs, tinha ligado o rádio, mas apenas se ouvia música clássica, nem uma palavra, nem notícias…nada! Fiquei bastante intrigada! Normalmente, a rádio passava música diversa e às 8 horas surgiam sempre as notícias… Mas naquele dia… só música clássica! Ainda comentámos se teria morrido algum governante, pois esse era o procedimento das rádios quando algum óbito ocorria entre “gente importante”.
Saí de casa rumo ao Liceu e fui para a aula de Matemática. Durante a aula, um colega pediu à professora para sair, com o pretexto de que ia à casa de banho. Quando regressou, começou um “sussurro” na aula que se ia generalizando… até que a professora questionou sobre o que se passava. Foi então que esse meu colega disse que havia uma revolução, em Lisboa. Começámos todos a conversar uns com os outros, a professora foi dando umas achegas… mas a verdade é que ninguém sabia ao certo o que estava a acontecer.
Soube mais tarde que esse colega era já uma pessoa mais informada politicamente e que tinha colaborado algum tempo antes numa acção que tinha consistido no “aparecimento”, no pátio do Liceu, de uns folhetos com propaganda anti-governamental.
Mas voltando ao dia 25 de Abril… Quando saímos da aula de Matemática, estávamos todos muito ansiosos e curiosos sobre o que se estaria a passar. Já era então voz corrente que havia uma revolução em Lisboa.
As restantes aulas da manhã decorreram com normalidade, mas o assunto do dia era a “revolução”.
Lembro-me que, à hora de almoço, a minha mãe já não queria que eu fosse às aulas, na parte da tarde, podia ser perigoso, dizia ela, nunca se sabe o que pode acontecer numa escola quando há uma revolução no país. Eu devia era ficar em casa sossegadinha, era mais seguro. Eu insisti e lembro-me de dizer: Mãe, em Lisboa deve andar toda a gente na rua a festejar e nós aqui tão longe!...
Acabei por ir para o Liceu, mas as aulas da tarde foram canceladas e então aproveitámos para conversar sobre o que estava a acontecer. A verdade é que, numa pequena cidade do interior, como Castelo Branco, a informação era escassa, mas de uma coisa tínhamos a certeza: algo estava a mudar.
A generalidade dos jovens da minha idade estava muito pouco informada sobre política e, no meu caso, se alguma coisa sabia isso ficou a dever-se ao facto de eu e as minhas amigas termos alguns “pen-friends” de outros países da Europa, com quem trocávamos correspondência havia já algum tempo. Um desses “pen-friend” era francês e numa das cartas perguntava qual o partido político que estava no governo e quais os partidos da oposição, em Portugal. Confesso que ficámos surpreendidas com estas perguntas e foi isso que nos levou a fazer alguma pesquisa sobre o assunto, para podermos responder ao amigo francês. A conclusão a que chegámos, na altura, é que o único partido era o do governo. Grande surpresa para o francês… como devem calcular.
Mas naquela tarde do dia 25 de Abril, em que não houve aulas, tudo começou a fazer sentido, lembrámo-nos da conversa com o francês e começámos a admitir a possibilidade de estar a chegar ao nosso país um regime democrático… como aquele de que o francês nos tinha falado nas suas cartas.
Só ao fim da tarde é que a RTP transmitiu um comunicado lido por José Fialho Gouveia, que dizia: “O Movimento das Forças Armadas” – MFA – na sequência das acções desencadeadas na madrugada de hoje com o objectivo de salvar o País do regime que há longo tempo o oprime…etc, etc…
Só mais tarde, a televisão mostrou as imagens da população de Lisboa, numa grande euforia, acompanhando os militares, pelas ruas, correndo até algum risco de vida. Lembro-me das imagens do Largo do Carmo: a multidão a apoiar os militares, até em cima das árvores havia gente, um grande entusiasmo, palavras de ordem… “O povo, unido, jamais será vencido”, “O povo, unido, jamais será vencido”…
Ao longo da noite, outros comunicados do MFA foram divulgados pela televisão e pela rádio. A mensagem era de que as Forças Armadas tinham libertado o país do regime ditatorial até então vigente e que não tinha sido derramado sangue (soubemos mais tarde que não tinha sido exactamente assim) e que os populares tinham oferecido cravos aos militares, tendo-os colocado nos canos das espingardas – daí a designação de “Revolução dos Cravos”
 
Pedro Costa

 

publicado por projecto9b às 23:22

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