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O meu tio José Manuel Domingues dos Santos partiu para a Guerra do Ultramar, a 5 de Fevereiro de 1969, para a Guiné.

O barco em que partiu tinha o nome de Uíge. O meu tio diz que era um barco com gente a mais, água por todo o lado e pessoas enjoadas por nunca terem andado num barco. Comiam, bebiam água e dormiam, isto durante sete dias. Diz também que foi uma viagem muito cansativa. Quando chegou, viveu muitas histórias. Em Bissau, trabalhava com o rádio, para ver se estava tudo bem com os seus companheiros.

Para desabafar o que sentia e vivia, escrevia no seu diário.

Voltou, para Portugal, em Março de 1971.

O Uíge

 

O meu tio a trabalhar na rádio

 

 

Diário de um soldado na Guiné:

“Fogo”

“O Unimog deixa atrás uma nuvem de poeira que derivado ao ar pesado vai demorar a pousar no chão. Corremos uma estrada poeirenta, como são as estradas no mato. Dos lados da estrada é só matos e o carro desloca-se com grande rapidez, levantando uma nuvem de poeira. O carro desloca-se em zig-zag pelo meio das árvores. Ao longe, por cima da copa das árvores, erguem-se nuvens de fumo, colunas de fumo erguem-se para o céu. O carro avança rapidamente, dali a pouco o cheiro a fumo entra-nos pelas narinas e de repente as chamas surgem de ambos os lados da estrada, como que tentando fazer parar a nossa marcha.
Alguém diz “Atenção às chamas!”, e todos se encolhem, enquanto aguentam a respiração e o carro sem se deter na velocidade atravessa as chamas e o calor aumenta subitamente de volume e nós vemo-nos envolvidos pelas chamas e pelo fumo. O carro continua a rápida corrida, enquanto todos sacodem as roupas e cada qual procura que o lume não chegue às armas. O ar torna-se quentíssimo e cheio de fumo, enquanto os fogos vêm surgindo uns após os outros. Enquanto isto tudo, nós pensamos “Oxalá arda tudo.”. Sim, nós ainda nos alegramos com o incêndio, pode-se dizer que nós vamos contentes ao atravessarmos as chamas e não pensamos nas árvores e nos bichos que fogem.
Pensamos é nos bichos que as matas escondem, bichos humanos, que se entretêm a espalhar o terrorismo…”

Guiné, 25 de Janeiro de 1970

O soldado: José Manuel Domingues dos Santos

 

O meu tio na Guiné

 

 

 

Cristele Frade

publicado por projecto9b às 19:21

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