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Out 08

"As Memórias da Grande Guerra (1916-1919)".

Jaime Cortesão, autor deste livro, participou na 1ª. Guerra Mundial como médico.

 

             Jaime Cortesão

 

Excertos do livro As Memórias da Grande Guerra (1916-1919):

 

«Espera-se , a cada hora, que a ofensiva alemã, iniciada na direcção de Amiens se generalize a outros pontos da frente. Mas, - coisa inevitável, - os nossos soldados, começam a revoltar-se. Sim, inevitável. Pois se de Portugal não mandam reforços e nos esquecem, e altos comandos, sem coragem de protestar por todas as formas contra esse desprezo, fazem todos os dias aos soldados promessas de descansos e licenças que nunca chegam, e exigem de alguns milhares de homens o doloríssimo esforço, que nos outros exércitos se distribui por centenas de milhares, que menos se podia esperar?»

 

Embarque dos Soldados Portugueses para a Flandres

 

 

«Entro na primeira estância: regurgita de feridos, lançados em macas, a esmo, sobre o ladrilho do chão, de lés-a-lés. Ao primeiro relance lobrigo apenas, lançada por terra, a massa azul-cinzenta das fardas, manchada de lama e sangue. Ouve-se um remexer dorido, gemidos baixos, rouquejos. E logo, distintamente, salta-me aos olhos a visão de um grupo tregicamente imóvel, ali ao pé, rente a mim, e à orla do amontoado humano: é um padre que reza, ajoelhado, as orações da última hora, dobrado sobre um vulto estendido e inerte  com uma face branca e fria  de gelar. Para seguir  às salas da frente é mister entrar num cortejo de soldados, sopesando em macas mutilações humanas. Ali trabalhavam sem descanso três equipes de operadores. Lançados ao acaso sobre as macas , os feridos de mais gravidade esperam a sua vez. Um cheiro pesado e morno a éter, sangue e entranhas violadas entontece e engulha. À beira deste ou daquele pingam nascentes de sangue. O chão é todo manchado pelo rio vermelho da vida que extravas.»

 

                         Soldados Portugueses nas Trincheiras da Flandres

 

 

«Oficiais gaseados entram constantemente. Os dois primeiros já morreram de colapso cardíaco. Um tem na cara roxa  de defunto uns olhos rubros de laca. Outros vêm, figuras lívidas, queimadas, farrapos e crostas de lama, cambaleiam, desabam sobre as macas e depois que os despem ficam longamente sem falar nem bulir. Há-os tão inertes que parecem empedernidos de cansaço. Outros endoideceram de espanto. O capitão Queiroz do 20 de Infantaria, amparado por dois soldados, avança, todo encharcado em lama, negro, desvairado, pintado a sangue e pólvora. Foi atingido e rasgado por estilhaços aqui e ali, numa perna, nas costas, no pescoço, e sufoca de gases. Como conhece o Frazão, que está ali perto e me auxilia, conta-lhe a batalha em gritos, anseios e gestos doidos. Mas dir-se-ia possesso daquela visão de inferno.»

 

                                  Sector Português  após a Batalha de La Lys

 

 

Ana Rita Marques e Jessica Marques

publicado por projecto9b às 17:13

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