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Na década de 50, entre 1954 e 1957, os meus avós maternos, Dulce Borges e Alberto Chorão dos Santos, foram transferidos de Lourenço Marques (actual Maputo), no Sul de Moçambique, para Quelimane, no Centro do mesmo país, em comissão de serviço. Eram ambos funcionários dos Caminhos-de-Ferro, a maior empresa estatal do país.

Comparativamente a Lourenço Marques, Quelimane era uma cidade com pouquíssimas condições, já que não possuía água canalizada, um problema para um casal com um filho de 16 meses, o meu tio Alberto Jorge. Para beber, a minha avó filtrava e fervia a água da chuva. Para lavar a roupa, limpezas e banhos, os meus avós utilizavam a água do poço da sua casa, dado que Quelimane ficava ao nível do mar.

Como na cidade não havia legumes à venda e a minha avó necessitava deles para a alimentação do quotidiano, o meu avô decidiu pedir ao condutor do autocarro, que todas as semanas ligava Quelimane à cidade mais próxima, perto de Tete, o favor de lhos trazer. Para isso, arranjou um caixote com um cadeado, onde vinham os legumes para uma semana e que a minha avó dividia com uma professora do 1.º Ciclo, a Sr.ª Dona Victória, que tinha duas meninas da idade do meu tio e que ainda hoje escreve e publica as suas poesias.

Naquela região, em que se registavam 40º C de dia e de noite, a minha avó guardava os alimentos num frigorífico a petróleo, que diz ter sido muito bom, da marca Electrolux – um paradoxo, porque a designação desta marca faz referência à electricidade.

Devido ao calor excessivo, as pessoas não podiam sair à rua durante a noite, em Quelimane, pois os mosquitos picavam, mesmo por cima da roupa, o que era muito perigoso, dado que as picadas do mosquito anofelix provocavam o paludismo, verdadeiramente mortal. O irmão mais velho da minha avó faleceu vítima desta doença. Mesmo ela sofreu várias crises, tendo tido febres muito elevadas que provocavam ora calor extremo, ora frio excessivo. Para evitar esta doença, administrava-se Quinino.

As elevadas temperaturas da região obrigavam a que os funcionários públicos tivessem um horário único de trabalho, das sete da manhã à uma da tarde. Os edifícios centrais dos Caminhos-de-Ferro eram dotados de ventoinhas de tecto, que faziam com que a minha avó usasse um pisa-papéis sobre os seus documentos.

Após esta comissão de três anos, os meus avós regressaram a Lourenço Marques. 

A minha avó aos 7anos, mascarada no Carnaval.

 

 

Carolina Santos

 

publicado por projecto9b às 10:14

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