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O meu avô chama-se Eugénio Conceição Gonçalves e esteve na Guerra do Ultramar. Partiu para Angola, dia 21 de Janeiro de 1967, no barco Vera Cruz, e regressou, no dia 27 de Março de 1969.

 

 A primeira semana foi passada no agrupamento Grafanil (Luanda), 8 dias que se passaram a dormir ao relento, por vezes chovendo.

Passados esses dias partiram para Bessa Monteiro, aquartelamento isolado onde permaneceram 15 meses. Estava cercado por arame farpado e armadilhamento. Era necessário fazer 100 km para se reabastecerem, a viagem era longa e feita em JMS, jipes e Bartlie. Às vezes escorregavam por uma ribanceira e ficavam lá até ao dia seguinte. Por vezes, o caminho era tão mau que se demorava 24 horas a fazê-lo. Em Abmizente só se encontrava um local público de brancos.

 

 

 

 

Passados esses 15 meses, mudaram-se para Maquela do Zombo, uma vila perto da fronteira, com pouca população e com muito comércio, feito pelos brancos. Nessa época, fazia anos que tinha arrebentando a Guerra em Angola e foram informados de que iriam ser atacados por 6 mil pessoas. No quartel, estavam cerca de cento e poucas pessoas. Esse quartel já tinha muralha e postos de vigia e ali perto havia um posto de radar que também estava a cargo do batalhão do meu avô. Nessa noite, arrebentou uma mina e todos ficaram alerta, a pensar que já era a guerra e disparar para o ar. Mas, por fim, viram que a mina tinha arrebentado por causa de um javali.

Durante 15 dias, não houve carne nem pão, devido à avaria dos aviões e helicópteros. Tinham de se deslocar a uma vila próxima, para se alimentarem, mas comiam sempre o mesmo arroz de pimento. Durante esse tempo, tinham de lavar o atrelado do lixo, num pequeno rio que ali se encontrava, onde existia um crocodilo.

 

                                                       

   

O meu avô era operador de transmissores e teve de ir montar um rádio num suporte de uma viatura para uma coluna que ia sair para outro quartel. Quando iam a caminho, sofreram uma emboscada: roubaram-lhes o rádio, incendiaram carros e mataram pessoas. Foi morto o motorista de um Bartlei que era um carro principal. Nesse carro principal, seguia um indivíduo que tinha sido castigado e não tinha carta de condução, mas mesmo assim conseguiu levar o Bartlei e ir pedir ajuda ao quartel mais próximo, que ficava a 30 km de distância.

Passado algum tempo, foram até Luanda e embarcaram novamente no barco Vera Cruz. Foi uma viagem difícil, com um mar muito agitado. O Vera Cruz parecia um berço. Quando avistaram terra o “nosso coração logo se alegrou, tinha chegado ao rumo donde abalei” – palavras do meu avô.   

 

 

Jessica Marques

publicado por projecto9b às 12:22

Nem tudo está perdido em Portugal, quando há jovens - do nosso pós-guerra -, que se dedicam a honrar a memória dos seus.
naveg a 16 de Março de 2012 às 17:46

Lindo comentario Jessica, este relato é um pouco daquilo que milhares de militares passaram na guerra colonial, felizmente muitos voltaram alguns com mazelas que ficaram para o resto da sua vida. Eu tambem por la andei de Junho de 1965 a Junho de 1967 pertencia a Compª. Cavª. 781 estive na Buela fronteira norte de Angola bem perto de Maquela do Zombo.
Felicidades.
Antonio Vieira..
Antonio Vieira a 6 de Junho de 2012 às 14:52

Gostaria imenso de entrar em contato com Jéssica Marques o que fazer?
Antonio da Lança Costa a 11 de Janeiro de 2016 às 22:09

Olá Jessica, o meu pai foi colega do teu avô...pergunta-lhe se ele se lembra do "Cantinas" ?
José Coelho a 27 de Janeiro de 2014 às 00:25

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