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Abr 09

 

“Eu fui o sétimo filho de um total de nove. O meu pai era guarda-rios e a minha, além de mãe, era agricultora e dona de casa.

Tempo difícil, pois nasci em 1962, o dinheiro que entrava em casa era o vencimento do meu pai, algumas gorjetas do lugar que se exercia como secretário na Junta de Freguesia local e uma especialização “caseira” que consistia em fazer projectos de vivendas, que eram assinados por um engenheiro, em que a assinatura deste valia metade do preço do projecto. As cópias eram tiradas através do sol e amoníaco.

Ao ser o sétimo filho, alguns mais velhos, já estavam fora a estudar. Era esta a política de casa: dar a possibilidade de estudo a todos. Como o dinheiro que entrava em casa não dava para extravagâncias, eu só tinha calçado para ir à escola e para os Domingos, todo o resto do tempo andava descalço, tanto nas brincadeiras, como no trabalho.

Embora fossemos miúdos com seis/sete anos já trabalhávamos, pois tínhamos que ajudar, mesmo que pouco, na agricultura e a guardar cabras.

Na minha casa nunca faltou pão na mesa. Comi pão de trigo, pela primeira vez, aos sete/oito anos. Na mesa, ao pequeno-almoço, havia broa (pão de milho), café de cevada, leite de cabra e queijo fresco feito pela minha mãe. Às vezes, havia ovos fritos e manteiga.

O almoço era farto, embora não houvesse grande variedade de comida. Havia sempre pão, sopa e segundo prato. A carne era principalmente de porco, galinha e coelhos (tudo caseiro). A variedade de peixe era consoante o preço e o resto do dinheiro disponível, pois as despesas com os irmãos a estudar fora (Castelo Branco) era muita.

Lembro-me da necessidade de uma sardinha ser dividida por dois, em que nenhum queria a parte da cabeça.

Embora com muitos filhos e muita despesa, a nossa família foi sempre unida. Os mais velhos completaram o 5º ano (9º ano actual), enquanto sob jurisdição dos pais. Depois disso, arranjaram emprego e continuaram a estudar.

O irmão mais velho emigrou e todos eles começaram a ajudar financeiramente os meus pais e, indirectamente, a educação e a vida dos mais novos.

Viver na aldeia era divertido, saudável e havia uma cumplicidade dentro de casa e com os vizinhos.

Todos os dias à noite, após o jantar, eu e os meus vizinhos mais novos brincávamos na rua, fazendo jogos tradicionais como as escondidas, jogo do prego, jogar à bola, entre outros.

Aos Domingos, não podia jogar a bola, pois estragava o calçado e, ao chegar assim a casa, os meus pais batiam-me.

Lembro-me da primeira televisão que veio para a aldeia e de ver Portugal ser campeão do Mundo em hóquei em patins, que era o desporto mais popular na altura.

Lembro-me também de, num Domingo, ter caído na calçada, numa brincadeira, e ter rompido umas calças novas. Não foi preciso o meu pai bater-me para eu desatar a chorar, pois roupa nova era rara, muito rara. A minha roupa era principalmente feita pela minha mãe e irmãs mais velhas, de restos de tecidos ou de roupa usada que ainda dava para aproveitar.

Como a aldeia onde morava era pequena, não havia carros nem motorizadas. Quando vinha um carro à aldeia, era uma correria de todos os miúdos, era uma grande festa.

Nunca tive problemas de saúde, além das doenças normais, como por exemplo, a papeira e o sarampo. Quando precisava de tomar alguma vacina, ia numa carrinha de caixa aberta, na carroçaria, mais os outros miúdos e um adulto, para tomar conta de nós. Íamos à vila de Pampilhosa da Serra ou a outro lugar marcado e era um dia de festa.”

 

 

                  

     Os irmãos mais novos e, no lado esquerdo, o meu pai.

 

                                                                            

                                                                       Catarina Patrocínio

 

publicado por projecto9b às 23:18

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