Somos o 9.º B da Escola Cidade de Castelo Branco. Neste blog, publicaremos os nossos trabalhos realizados no âmbito da disciplina de Área de Projecto.
Somos o 9.º B da Escola Cidade de Castelo Branco. Neste blog, publicaremos os nossos trabalhos realizados no âmbito da disciplina de Área de Projecto.






“Resposta à tua voz”
“O sol já se tinha escondido e as trevas avançavam, cobrindo tudo com o seu manto escuro. Recolhi ao abrigo que era também ao mesmo tempo dormitório e posto de rádio. Deitei-me na cama mas, nesse momento, entra alguém no abrigo falando rapidamente e dizendo: Rápido, liga o rádio, então a ouvir-se rebentamentos na direcção de Ualicunda; De um salto estou sentado em frente ao posto de T.S.F e manobrando os botões ligo o rádio. Logo, um ruído da estática sai do aparelho inundando o silencioso abrigo. Junto com os barulhos da estática e outros ouvia-se fracamente uma voz que dizia: Não consigo ouvir a sua transmissão, deve chamar Alfa Kilo 7; Então, outra voz um pouco mais nítida respondeu: Afirmativo, vou chamar o mesmo. Atenção Alfa Kilo 7 aqui Alfa bravo 3 chama; Aquela chamada era para mim e imediatamente pego no micro do aparelho e respondo: Alfa Kilo 7 escuta Alfa Bravo 3; Do aparelho vem a resposta: Afirmativo, informo que estou sofrendo um ataque. Deve informar se pode dar ajuda; Então, antes de responder, digo aos soldados que se encontram perto de mim para se prepararem. Um soldado sai correndo e aproximo o micro e respondo: Estou preparado, dê-me posições;
A resposta chega misturada com outros ruídos: Afirmativo, posições 34, 36 e 39, rápido; Enquanto recebia a transmissão escrevia num papel e por cima do meu ombro, um oficial lê e dá as ordens. Saindo também em corrida, enquanto eu ligava novamente o rádio para dizer que iam começar a disparar e que continuava à escuta. Apenas tive uma resposta: afirmativo! Esta foi abafada por um estrondo terrível e outros segundos depois. Os obuses estavam a disparar, enquanto o chão termia e o abrigo ameaçava cair-me em cima por cada disparo. Um zumbido na rádio anunciava nova transmissão, pus os auscultadores e a voz chegou como que de mais perto, enquanto os disparos dos obuses se ouviam mais abafados mas tremendo tudo. A voz nos auscultadores dizia: Novas posições; Apenas respondi afirmativo. E ao mesmo tempo escrevi num papel os números das posições e dei ao oficial que se encontrava perto de mim, o qual saiu rapidamente. Os disparos continuavam com as explosões ensurdecedoras, tremendo tudo, enquanto eu olhava para o tecto do abrigo com medo que este caísse e não se aproveitasse nada. Pouco depois, ouviu-se uma voz na rádio que dizia que o inimigo se tinha retirado. Estava tudo calmo e em seguida desligo o aparelho. Nós sentíamos uma pontada de contentamento por podermos ter dado ajuda a camaradas afastados. Dentro do abrigo, acalorado, saio para fora. Corria uma leve aragem da noite, estava tudo calmo…”
Guiné, 23 de Junho de 1971
O soldado: José Manuel Domingues dos Santos
O meu tio trabalhando na rádio
Cristele Frade
A minha mãe em 25 de Abril de 1974 tinha 11 anos e estudava num colégio interno de freiras, situado em frente ao jardim S. Pedro de Alcântara (bairro alto, Lisboa).
Nesse dia não houveram aulas porque os professores não vieram, estavam apreensivos e ninguém saía à rua com medo do que poderia advir de toda a situação que se passava nas ruas da baixa Lisboeta.
Todas as portas e gradeamentos do colégio foram fechados.
Nas primeiras horas da manhã ninguém sabia o que estava a acontecer, o Rádio Clube
Português transmitia comunicados e músicas diferentes.
A minha mãe e algumas colegas, às escondidas, foram espreitar à janela para ver o movimento da rua e uns senhores que trabalhavam nuns escritórios do edifício em frente, apavorados, mandaram-nas recolher e fechar as janelas, continuaram sem nada saber.
Através da rádio acompanhavam o desenrolar da situação.
No dia seguinte durante as aulas os professores relataram o sucedido.
A partir daí vivia-se um clima de suspeição por ser um colégio de freiras podia haver retaliações. Porque era uma revolta contra o estado actual e a igreja era considerada fascista.
A ocupação das instalações da rádio Renascença fora um exemplo disso (os meus avós de Rio Maior vieram até Lisboa juntamente com outras pessoas contestar este facto).
No domingo seguinte, a minha mão foi passear com o tio e viu de longe os tanques de combate e todo aquele aparato no convento do Carmo.

A minha mãe no jardim do colégio.


Bruno Costa

Ana Marques
Esta história foi-me contada pela minha mãe Helena Morera:

Sara Morera
“Um dia de Páscoa”
“Encontro-me deitado em cima do colchão, enquanto a terra vai caindo das palmeiras que formam o abrigo, e pelas janelas entra o vento e a poeira. Tudo isto porque me encontro tomando conta de um posto de rádio, algures numa tabanca na fronteira da Guiné. Comigo, há um grupo de combate, todos vivendo em abrigos tal como eu. Alguns dos abrigos quase a abater, incluindo o meu. Mas, não se pensava em nada trágico pois era dia de Páscoa e esse dia devia ser passado com alegria.
O dia começou quando um soldado saiu do abrigo, às 3 da manhã, para começar o seu turno de serviço. De repente, deu conta do abrigo prestes a abater e gritou para os dois camaradas, que lá estavam a dormir, os quais acordaram a tempo. Um deles saiu pela porta e o outro pela janela, ferindo-se ainda, mas ligeiramente. O abrigo abateu, com um grande estrondo. O prejuízo foi apenas material, apenas o dia de Páscoa ia ficando memorável para alguns. O resto do dia ia-se passando na mesma monotonia do costume, apenas ao almoço houve mais variedade de comida e mais um pouco de alegria. De tarde, realizou-se uma partida de futebol, a qual durou 30 minutos, pois o campo estava prestes a transformar-se num campo de luta, devido às faltas de alguns. Por isso, o furriel não deixou continuar o jogo. Depois, fomos jantar, o qual decorreu menos animado, ainda com os ânimos alterados do futebol. Passou-se assim um dia de Páscoa.”
Guiné, 29 de Março de 1970
O soldado: José Manuel Domingues dos Santos
O meu tio e os companheiros, no dia de Páscoa
Cristele Frade
Decidi entrevistar o meu pai, sobre a experiência de vida dos meus avós:
“A Aldeia de João Pires localizada no concelho de Penamacor é a minha terra natal desde 1966.
Tive uma infância bastante feliz. Nesta aldeia, como era em todas as outras aldeias do interior, os seus habitantes dedicavam-se à agricultura por conta própria ou de outrém.
Os meus pais possuíam algumas terras, mas, a profissão do meu pai era carpinteiro e a minha mãe era doméstica, agricultora e costureira em tempo livre, que não era muito. Até aos 6 anos, acompanhava a minha mãe nas lides da casa e em brincadeiras com os meus avós. Frequentei a Escola Primária da aldeia, o Ciclo Preparatório em Penamacor e, posteriormente, o Externato de Nossa do Incenso, também em Penamacor, onde conclui o 12.º ano.
A nossa alimentação assentava basicamente em produtos hortícolas, comprando-se apenas a carne de vaca e o peixe. Era uma alimentação bastante saudável, onde nunca faltava o leite e, alguns anos depois, os iogurtes comprados em Penamacor, quando íamos ao mercado.
Na minha aldeia, os meios de transporte eram a camioneta da carreira, que era aquela que nos levava das aldeias para Penamacor e vice-versa. Também se utilizava, mas já mais dentro das povoações, o burro e a carroça.
Até à idade de 11 anos, em minha casa, só existia uma telefonia. Posteriormente, os meus pais compraram uma televisão a preto e branco, o que foi uma grande novidade e uma grande festa.
Nos meus tempos livres, enquanto criança, gostava de brincar á macaca, ao farrapo queimado, ao toca e foge, etc. Já em adolescente, os meus tempos livres eram ocupados a ler, a ver televisão, a ouvir telefonia, fazia renda, cozinhava e, claro, havia os bailes e as festas de verão.
A moda, naquela altura era muito diferente de agora. Usavam-se as calças à boca-de-sino e os sapatos com tacão alto, talvez o estilo mais marcante da época. Eu comprava alguma roupa em Penamacor, mas a maioria era confeccionada pela minha mãe.
Anaísa Santo